Homeopatia - Medicina de Hoje para o Futuro

HOMEOPATIA

Medicina de Hoje para o Futuro

   Milton Lopes de Souza

Professor Assistente Doutor do

Depto de Clinica Médica – Disciplina de Semiologia e Medicina Interna

Faculdade de Ciências Médicas - UNICAMP

Cidade Universitária Zeferino Vaz – Campinas – SP

CEP:13083-970

É cada vez mais freqüente que o médico clínico se depare com uma prescrição homeopática ou fitoterápica com nomes em latim e números estranhos. O paciente pode pedir-lhe uma opinião sobre tais tratamentos. A Homeopatia é especialidade médica reconhecida no Brasil, pelos Conselhos Federal e Estaduais de Medicina e aceita em todos os convênios de saúde. Apesar de ser ensinada em poucas universidades brasileiras, é muito procurada  pelos médico como curso de especialização. 

Na Europa, cerca de 40% dos médicos na Holanda utilizam a Homeopatia como método terapêutico . Na Inglaterra, mais de 37% dos médicos aplicam a homeopatia, sendo de conhecimento público que a família real se utiliza desta forma de terapêutica como prioritária. Nos Estados Unidos há um crescimento anual de 20 a 25% no que se refere ao interesse e investimentos em pesquisa sobre as formas de medicina não convencional. Também nesse país, no tratamento do câncer, cerca de 80% dos pacientes procuram alguma forma de tratamento complementar ao tratamento convencional, entre eles a homeopatia. (1,2,3,4)

Aspectos Históricos

A Homeopatia surgiu a partir do século XIX como uma nova possibilidade de tratamento dos seres humanos, tendo em vista sua unidade psicofisiológica. Foi desenvolvida pelo médico e pesquisador alemão, Friederich Samuel Hahnemann (1755-1843) e está baseada no princípio hipocrático: “Similia similibus curentur”, ou seja, a cura pelo semelhante. Hahnemann partiu do princípio que pessoas sadias são sensíveis, em suas idiossincrasias, às substâncias da natureza, tanto em doses ponderais quanto em doses ultradiluídas e submetidas a um processo de agitação ou dinamização, produzindo sintomas e alterações morfofuncionais que atingem desde o psiquismo até os diversos aparelhos e órgãos do corpo físico, método este denominado Patogenesia. Esse pesquisador realizou estudos de cerca de 60 drogas, realizando várias curas consideradas impossíveis àquela época. (5,6) Hahnemann introduziu o método duplo cego para estes estudos que, reunidos aos sintomas provenientes da toxicologia acidental, constituem o que chamamos Matéria Médica ou farmacopéia homeopática. Classificou as drogas como provenientes dos três reinos da natureza, além de drogas químicas e produtos patológicos vegetais, animais e humanos. Existe atualmente mais de 2500 drogas experimentadas e cerca de 200 de uso corrente na clínica.

A Homeopatia teve seu desenvolvimento em todo o mundo até o pós-guerra, quando o progresso da industria farmacêutica, as pesquisas no campo físico-químico e a fragmentação da medicina em especialidades relegaram-na ao descrédito, uma vez que não se pode demonstrar o mecanismo de ação de soluções praticamente não moleculares.

No entanto, a partir da década de 1970, a medicina atual, hegemônica, passou a evidenciar sua insuficiência diante de casos crônicos, degenerativos, evolutivos e recidivantes, apesar do advento de drogas potentes como antiinflamatórios, corticoesteróides, antibióticos, antidepressivos, etc.. O profissional médico, nesse enfoque da superespecialização, viu-se cada vez mais preso à multiplicação de exames, consultas superficiais, prescrições caras, além dos freqüentes efeitos colaterais das drogas em pacientes multimedicados. Foi nesse contexto que a Homeopatia e outras terapêuticas ditas não convencionais, alternativas ou complementares, como são denominadas mais recentemente, ressurgiram na tentativa de resgatar o paciente como pessoa, inserida numa cultura, família, sociedade, interagindo com o meio ambiente, sofrendo limitações para o pleno desenvolvimento de suas potencialidades criativas, onde a doença nada mais é que a expressão da desarmonia, inicialmente no plano psico-neuro-endócrino, e que, posteriormente, evolui para as lesões orgânicas estabelecidas.

Abordagem clínica

Em que difere a abordagem clínica convencional (alopática) da homeopática?

No que se refere à anamnese clínica, exame físico, exames complementares necessários aos diagnósticos clínicos e cirúrgicos, não existem diferenças. Porém estes dados são insuficientes para a escolha da terapêutica baseada na lei dos semelhantes. Não se medica pelo diagnóstico, em protocolos fixos. Na abordagem homeopática, faz-se necessário uma individualização dos sintomas, isto é, da forma como o paciente vive sua doença, como está afetado no plano mental, emocional, social e ambiental, de como surgem os sintomas na sua história de vida, eventos estressantes, perdas afetivas, financeiras. As doenças surgem como conseqüência destes eventos.

 Na clínica alopática, o médico considera-se satisfeito com o desaparecimento dos sintomas e a normalização dos parâmetros laboratoriais numa doença aguda ou no controle dos mesmos na doença crônica. Quando existe recidiva, apesar do tratamento, propõe-se extirpação cirúrgica do órgão, quando possível, e, se novo conjunto sintomático aparece, um novo diagnóstico e novo tratamento são instituídos. Não somos ensinados a perceber que há um fio único condutor na evolução e na apresentação das moléstias que o paciente vai apresentando ao longo da sua vida, desde o eczema da infância até a hipertensão e o infarto no final da vida, e que a doença se mostra desde a mente até a pele, apesar dos diagnósticos que fazemos.

A Homeopatia, por outro lado, propõe um conceito de saúde abrangente, que inclui a atividade da mente, o emocional e o físico. Assim, o adoecer se faz no sentido centrípeto, dos órgãos mais superficiais e menos vitais, para os mais vitais e finalmente a mente, enquanto a cura acontece no sentido inverso. Se o paciente apresentar controle metabólico adequado quanto ao diabetes, ou estabilização da artrite, mas evoluir com um quadro depressivo, manifestando insônia e apatia, obviamente, não estará saudável. Se a cirurgia de revascularização miocárdica devido a uma cardiopatia isquêmica for um sucesso, mas o paciente desenvolver depressão suicida, ou demência associada ao mal de Alzheimer, não será muito pior essa condição do que a primeira?

Vamos, agora, considerar a atividade prática vinculada à Homeopatia.

Se um paciente apresenta-se recebendo Arsenicum album 12CH, para tratamento de uma síndrome dispéptica com endoscopia digestiva mostrando gastrite erosiva e presença do H. pylori, o que isto significa?

A escolha deste medicamento, baseada na lei dos semelhantes, se deu pela comparação dos sintomas do paciente e os apresentados na experimentação desta droga (Arsenicum álbum*, um metal, em diluição 10-24) em pessoas normais e sensíveis, relatadas como dor em queimação epigástrica, melhorada com alimentos quentes, vômitos após alimentação, sede aumentada em grandes quantidades, sensação de queimação mais intensa à noite e no início da madrugada. É ansioso, inquieto, acorda de madrugada com medo de morrer, tem insônia entre meia-noite e três da manhã. Acha que não vai se curar e tem fantasias de doenças graves como um câncer. Necessita companhia. Sente frio e pede ar livre; é extremamente organizado, limpo e bem vestido, obsessivo com seus pertences, precisa de tudo no lugar certo.

Um outro paciente com o mesmo diagnóstico, poderia receber, por exemplo, Lycopodium clavatum (planta), se apresentasse, além da queimação epigástrica, intenso desejo de doces, apesar de piorar a digestão, bem como meteorismo à tarde, sofrendo com o calor e a permanência em lugares fechados e transpirando durante o sono. Poderia apresentar caráter autoritário e não tolerar ser contrariado, escondendo uma falta de confiança em si mesmo. Se for um advogado ou um padre, terá ansiedade antes de apresentar-se em público, mas acaba saindo-se bem graças a um grande esforço e à gastrite.

O medicamento verdadeiramente curativo deverá levar o paciente não apenas ao desaparecimento dos sintomas específicos da doença clínica, mas ao equilíbrio psíquico, assim como ao sono, à paz interior e à boa convivência familiar e social.

Outro exemplo: É possível prescrever-se Lachesis trigonocephalus* (veneno da surucucu), como tratamento complementar a pacientes na menopausa. Os sintomas de fogacho, sufocamento, calor geral, depressão, mialgias, distúrbios hemorrágicos, insônia, possessividade, ciúmes, intolerância a roupas justas, loquacidade (pacientes que falam sem parar, mudam de um assunto a outro), etc, são sintomas presentes na patogenesia deste medicamento e quando os sintomas coincidem a paciente se beneficiará.

 Em geral os medicamentos homeopáticos têm, no plano físico, afinidades teciduais, o que leva muitas vezes a prescrições baseadas apenas em similitudes parciais. Assim, o Sulphur (enxofre), por ser constituinte importante da pele e tecido conjuntivo, pode ser muito útil em patologias que se expressam na pele e veias, como eczemas crônicos, varizes e hemorróidas, desde que os sintomas gerais e psíquicos coincidam. O Aurum metalicum (sal de ouro) possui afinidade nas articulações, no coração, vasos e no cérebro, podendo ser valioso no tratamento de pacientes hipertensos, depressivos e com insuficiência cardíaca, principalmente se respondem com melancolia às perdas afetivas. O Mercurius solubilis (mercúrio), será de grande valia nas infecções supurativas graves, como amigdalites purulentas, otites supurativas, abscessos perianais, retocolite ulcerativa com evacuações hemorrágicas, neoplasias necrosadas e ulceradas, geralmente acompanhadas de odor fétido (mercurial), tanto das secreções como do hálito, língua com saburra branca, salivação excessiva, em pessoas de personalidade repulsiva, revoltadas, agressivas e inquietas.

Estes são apenas alguns exemplos de como a Homeopatia poderá ajudar o clinico a resolver os problemas que se apresentam na vasta gama de patologias da área de Medicina Interna, seja como adjuvante no tratamento, seja como terapêutica exclusiva. Um paciente diabético, recebendo medicação homeopática, poderá se controlar com menor dose de hipoglicemiantes orais ou de insulina. Um paciente hipertenso poderá mais facilmente se estabilizar, requerendo menor quantidade de drogas alopáticas com o uso concomitante de medicação homeopática, e assim por diante.

 

Comprovação científica

As pesquisas que demonstram a atividade das ultradiluições homeopáticas podem ser encontradas em todas as áreas, ou seja, físico-químicos, ensaios biológicos, ensaios imunológicos, culturas de células e ensaios clínicos controlados.

Duas meta-análises realizadas por pesquisadores não ligados à medicina, Linde e cols (7) e Kleijnen e cols (8), envolvendo 119 ensaios clínicos homeopáticos, concluíram pela efetividade superior da homeopatia sobre o placebo. Nos últimos dez anos pesquisas em homeopatia estão sendo realizadas nas várias áreas do conhecimento médico (9-18) ,buscando adequação ao método científico atual, mas também ampliando o paradigma da pesquisa científica, uma vez que a homeopatia parece questionar, com suas ultra diluições amplificadas através do processo de potencialização, os processos de interação molecular reconhecidos até o presente. Questiona-se a escassez de pesquisa em Homeopatia no meio científico. No entanto, poderemos argumentar que  na medida  em que as universidades e os órgãos financiadores de pesquisa abrirem espaço para as medicinas complementares, entre elas a Homeopatia, pesquisas de qualidade surgirão no cenário científico, com novas possibilidades de tratamento acessíveis com baixo custo.

Referências Bibliográficas

1 EISENBERG DM, DAVIS RB, ETTNER SL, ET AL: Trends in alternative medicine use in the United States, 1990-1997: Results of a follow-up national survey. JAMA 280:1559-1575, 1998

2 ERNST E, CASSILETH BR. The Prevalence of Complementary Alternative Medicine in Cancer. CANCER 1998; 83:777-782

3 DE VITA VT, HELLMAN S, ROSENBERG S. Cancer Principles and Practice of Oncology, 5th edn. Philadelphia: Lippincot-Raven Publishers 1997, p 132

4 THOMPSON EA, REILLY D The homeopathic approach to sympton control in the cancer patient: a prospective observational study.  Palliative Med: 2002 16(3) 227-33

5 HAHNEMANN, S. Organon da Arte de Curar. 6a Ed. São Paulo: Robe Editorial,

6 EIZAYAGA FX Tratado de Medicina Homeopatica. Ediciones Marecel Buenos Aires, 1981 2ª.Ed. Cap.II e III

7 VITHOULKAS, G. Homeopatia: Ciência e Cura. 4a Ed. São Paulo: Cultrix. 1980

8 LINDE, K; CLAUSIUS, N; RAMIREZ, G et al. “Are the clinical effects of homeopathy placebo effects? A meta-analysis of placebo-controlled trials”. Lancet 1997; 350:834-843.

9 KLEIJNEN, J; KNIPSCHILD, P: “Clinical trials of homeopathy”. BMJ, 1991; 302:316-323.

10 ALBERTINI, H; GOLDBERG, W et al. “Bilan de 60 observations randomisées Hipericum – Arnica contre placebo dans les névralgies dentaires”. Homeopathie 1984; 1:47-49

11 ANDRADE, L; FERRAZ MB; ATRA, E et al. “A randomised controlled trial to evaluate the effetiveness of Homeopathy in rheumatoid arthritis” Scandinavian Journal Rheumatology 1991:20:204-208

12 AULAGNER, G. “Action d’un traitement homéopathique sur la reprise du transit post-opérative ileus” Homéopathie 1985: 6:42-45

13 BELLAVITE, P; SIGNORINI, S. “Homeopathy. A frontier in medical science”. Berkeley: North Atlantic Books. 1995.

 14 FISHER, P “An experimental double-bind clinical trial method in homeopathy. Use of a limited range of remedies to treat fibrositis” British Homeopathic Journal 1986;75:142-147

15 GIBSON, R G, MACNEILL, A et al. “Homeopathic therapy in rheumatoid arthritis: evaluation by double-bind clinical therapeutic trial”. British Journal Clinical Pharmacology 1980; 9: 453-459.

16 REILLY, D.T; TAYLOR, MA. Et al. “Is homeopathy a placebo response? Controlled trial of homeopathy potency with pollen in hay fever as model”. The Lancet 1986: II:881-885.

17 SOUZA, ML. “Os caminhos da Medicina” in Saúde em debate, Ed. Moderna 1a Ed. 1997.

18ULLMAN,D:“Scientific evidence for homeopathic medicine” http//.www.ihr.com/homeopat/ research.html.